Modulação hormonal – Vilã ou mocinha?

No úlitmo domingo o Fantástico veiculou uma reportagem sobre medicina “antienvelhecimento”. Segue abaixo o meu posicionamento:

Na minha opinião o primeiro ponto é que não deveria ser denominada medicina antienvelhecimento, pois não se trata de impedir ou retroceder o envelhecimento, mas sim retardar a evolução do envelhecimento ou torna-lo um envelhecimento mais saudável. Como exemplo, ao invés de uma pessoa não cuidar da saúde e adoecer aos 45, 50 anos e viver com uma péssima qualidade de vida até os 70 anos, ela pode escolher viver bem e com qualidade de vida e adoecer aos 70, 80 anos de idade. Talvez nos 2 casos as duas pessoas morram com idades próximas, mas a qualidade de vida, essa sim será bem diferente durante boa parte da vida delas.

Como em qualquer área, na medicina também existem profissionais que materializam condutas, usando-as como estratégias de marketing e acabam assim desviando o foco e o propósito do tratamento. Outros fazem de forma irresponsável sem tratar cada caso individualmente e acabam generalizando condutas. Alguns desavisados, ao invés de defender um envelhecimento saudável ou um adoecer mais tardio, defendem ideias como: “Rejuvenesça 10, 15, 20 anos tomando tal hormônio!”. O que eu chamo de envelhecimento saudável é envelhecer com a pressão arterial controlada, risco cardiovascular controlado, ausência de diabetes, câncer e outras doenças crônicas. Não que essas doenças nunca apareçam, mas que apareçam o mais tarde possível.

Vejo o reestabelecimento dos níveis hormonais dentro de faixas de normalidade (nem sempre corresponde ao valor de referência adotado pelos laboratórios), por meio do uso de hormônios como uma estratégia, embora não a única para todos os casos. Muitas vezes mudanças no estilo de vida, tendo como ponto central adoção de hábitos alimentares saudáveis e atividade física, fornecimento de minerais e vitaminas em quantidade suficiente e uso de fitoterapia já são suficientes para tanto para melhorar os níveis hormonais como também para reduzir o risco cardíaco pela redução dos avaliados pelos níveis sanguineos de homocisteína, lipoproteina a, fibrinogênio e proteína c reativa.

Um simples exemplo é a redução dos níveis de testosterona em decorrência do stress. Durante períodos de stress há uma maior liberação de adrenalina, noradrenalina e cortisol pela glândulas supra-renais. O cortisol, assim como a testosterona, é produzido a partir de colesterol. No nosso corpo sempre que uma via é favorecida outra via que deriva do mesmo ponto de partida é desfavorecida, no caso do exemplo dado o cortisol ficando mais alto sobra menos substrato (colesterol) para formar a testosterona e assim seus níveis tendem a ficar mais baixos. Então, a causa da baixa de testosterona não é necessariamente uma atrofia ou hipotrofia testicular, mas um desbalanço hormonal ocasionado por excesso de cortisol. Como corrigir isso através da dieta?

Através da dieta é possível modular a elevação do cortisol ao longo do dia, fazendo refeições mais frequentes ao longo do dia (ao elevar a insulina em resposta à elevação da glicemia após uma refeição, o nível de cortisol sanguíneo cai, pois insulina e cortisol são hormônios contrarregulatórios) e ainda pode ser feito o uso de fitoterápicos como Rhodiola rósea, ashwaganda, panax ginseng, L-theanina, denominados adaptógenos (ativos que modulam a resposta das glândulas supra-renais ao stress). Controlando os níveis de cortisol irá sobrar mais substrato para produzir testosterona e aí o resultado é a elevação dos níveis de testosterona sanguínea.

Esse foi só um de inúmeros exemplos que eu poderia citar de como a alimentação e nutracêutica podem influenciar na produção de hormônios que influenciam diretamente na disposição, sono, controle de apetite, manutenção do peso e qualidade de vida como um todo (hormônios tireoidianos, melatonina, DHEA, insulina, cortisol, testosterona, GH, IGF-1, etc.).

Mas voltando ao assunto dos hormônios biodênticos, o que eu vejo é que assim como há muitas pessoas que temem o uso de suplementos alimentares, também irão continuar existindo os que temem usar hormônios bioidênticos. Porém, percebo que cada vez mais pessoas vem se convencendo de que, se feito de forma responsável e orientada por profissional competente, os resultados são inquestionáveis principalmente para homens na andropausa e mulheres na menopausa. Pelos resultados obtidos por conhecidos, amigos, familiares, que utilizaram de tais estratégias, cada vez há mais interessados nesse tipo de tratamento. Assim, mesmo que contra a vontade de muitos, à medida que os resultados são mostrados, consequentemente a área ganha força.

O grande problema de tudo não vejo que seja o senso comum sobre a modulação hormonal, mas sim a falta de apoio do CFM a área de modulação hormonal por meio do uso de biodênticos. Isso sim é o grande entrave, muito provavelmente por conta de divergência de ideias ou mesmo confrontos de egos. Essa briga ainda deve ir longe…

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